ARRÁBIDA I
Seu ar varonil nas fragas agrestes!
Perfil de mulher na forma sem vestes!
Com nome de dama esta linda serra,
Tem cheiro a mato tem odor a terra.
Pensam que é virgem menina solteira,
Mas casou com o mar( foi a sua asneira):
Ele bate nela sempre a toda a hora,
Quando bate forte quase que a devora;
A lua com pena (sabe o seu segredo)
Acende-lhe a luz ,assim não tem medo.
Em noites escuras, grandes trovoadas
São choros de amantes ,almas torturadas.
Quando o sol aquece o seu fecundo ventre,
Insectos brilhantes bailam no ar quente.
Se a chuva cai abre-lhe as entranhas
E brotam do chão plantas estranhas.
Está sempre descalça com os pés na água,
Gotinhas de orvalho lágrimas de mágoa.
Enjeitou o céu pr'a seu companheiro,
maltratou o vento seu amor primeiro.
Provoca o folhado com olhos brilhantes,
O carvalhal encobre os ternos amantes.
A brisa mansinha alisa-lhe a saia,
Perfume a rosmaninho na blusa de cambraia
Enfeitada com folhos de estevas e alecrim.
Face louçã pintada com gladíolo carmim.
Pelo jasmim e tomilho colete bordado,
Diadema de estrelas no seu penteado.
Papoilas e madressilva com a rosa albardeira
Chamam cigarras e grilos pr'a cantar na clareira.
O rouxinol e a toutinegra fazem o seu trinado,
Os sinitos do rebanho musicam o ar parado
E as fadas da Perpétua iniciam um bailado.
Silvina Maria




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